perdidas,meninas, crianças, cegas, inteligentes, banais, futeis, lindas, urbanas, sujas.
luxúria.desejo.pecado.você.
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Quinta-feira, Julho 13, 2006
"Renda-se como eu me rendi.
Mergulhe no que você não conhece, como eu mergulhei.
Pergunte, sem querer, a resposta, como estou perguntando.
Não se preocupe em entender.
Viver ultrapassa todo o entendimento."
(Clarice Lispector)
Novo blog.
Novo MSN.
6:07 PM
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Sexta-feira, Julho 07, 2006
O não mais do nada.
Era assim que havia de ser, era inevitável. Engraçado, porque no começo era eu quem evitava e agora é o fim que se mostrava inevitável. Contudo, não é engraçado, não é nem um pouco engraçado. Eu temo com uma intensidade homérica a ideal daquela menina seduzindo aquele que podia ter sido a minha alma gêmea para sempre e sabe-se lá como, porque certamente não foi do jeito que eu o fiz. É minha culpa - será? É apenas culpa deste destino filha da puta, não é culpa de ninguém. Ecos deturpados de algo que foi um grande nada se dissolvendo em uma nuvem de incompreensão, desconfiança e hostilidade. Dói como abrir o peito e arrancar um órgão vivo sem anestesia. Paralisada, não me cabe nem mais observar - na verdade ver nunca me coube. Chega uma hora que lutar só serve para levar à loucura. Ameaça sem fundamento já que a insanidade sempre foi a maior das minhas certezas. Vou deitar sozinha na cama hoje e fingir que estou em um deserto e esperar que os quartos e os corredores se transformem em palcos fantasmas onde o sofrimento é celebrado e alguém aplaude no final. E todos os meus planos ficarão lá sem crescer na Terra do Nunca para sempre. Um nada que não tem mais nada a dizer, mas que quer dizer tudo para tentar arrumar o que há de errado. Um nada que, ao não dizer, sente que a chama ainda arde e dói. E nunca vai parar de arder. Uma experiência que será eterna, eterna no fracasso mais ainda eterna. E tudo aquilo que um dia foi o nada se dissolvera no passado e você não mais lembrará como foi. E se lembrar, se lembrará na cabeça e não no coração. O peito estará ocupado com outras coisas, isso se você for um daqueles meninos de sorte e ainda ter um para se deixar ocupar. Porque às vezes a dor é tão grande que o coração para e a gente fica amarga para sempre e deixa de acreditar neles. Nada passa nunca. Nada passa e a gente vira um amontoado de todas essas coisas. Ainda bem, senão não valeria a pena.
9:19 AM
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Quarta-feira, Maio 03, 2006
Ela o viu quando atravessava a rua vindo da loja de produtos importados, e logo pôs a acompanhar os seus passos. Ele passou pelo quiosque do metrô, passou pela roleta e se postou na plataforma entre o a maquina de livretos a dois reais e um enorme pôster do próximo filme a ser lançado.
O menino teria uns vinte e cinco anos. Tinha pernas curtas e brancas, cabelos curtos e pretos puxados displicentemente para o lado - talvez com os dedos. Trajava uma calça jeans simples, uma camiseta curta o suficiente para flagrarmos um pedaço de sua igualmente branca barriga e nenhum tipo de acessório. Era simples e eu gostava disso. Seu corpo era fino e anguloso. O tipo de jovem que você jamais veria saindo de lojas caras da Ataulfo ou de delicatessens pomposas depois de um trabalho burocrático - esse tipo de jovem costumava evitar o metro.
Fiquei o observando.
Outras pessoas também o olhavam. Certamente ele tinha consciência disso, mas não demonstrava interesse. Fazia parte do jogo. Eu tentava ser sutil, andava na plataforma fingindo indiferença, vez por outra observando a imagem do moço refletida em alguma superfície espelhada. Muitas vezes nos surpreendíamos nesse jogo e trocávamos um sorriso torto. Às vezes me recomponha, assumindo uma postura altiva.
Quando o trem chegou, eu o segui, mantendo-se sempre alguns passos atrás dele, e o vi sentar-se do outro lado do corredor, de joelhos afastados, as mãos segurando fortemente a lateral do banco e os olhos pretos fixos em frente.
O trem começou a ranger nos trilhos, rumo a Zona Norte, as luzes do túnel escuro passando rápido, uma senhora gorda com uma sacola de compras balançando sem parar, os homens espiando as moças bonitas por cima dos jornais - elas não ousavam olhar para eles com medo de estragar a imagem de inocência no metrô.
Se ao menos acontecesse alguma coisa, se ao menos o trem tivesse uma pane se as luzes se apagassem, se a mulher gorda caísse, haveria um pretexto para falar com aquele homem sentado a um metro e meio de distancia, do outro lado do corredor. Mas nada aconteceu. O trem seguiu em frente normalmente, como sempre acontece quando agente não quer assim.
Parou na Siqueira Campos
Depois em Botafogo
E ainda no Flamengo, e então o jovem levantou-se rápido, firmou-se no poste por um instante e se foi. Agindo da mesma forma que todos os garotos encantadores tendem a fazer.
fundo.gif
10:04 AM
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"well, maybe there's a god above
but all i've ever learned from love
was how to shoot somebody who outdrew you
it's not a cry that you hear at night
it's not somebody who's seen the light
it's a cold and it's a broken hallelujah "
7:38 AM
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Sexta-feira, Abril 28, 2006
E ainda assim eu tinha consciência de que o que via não era tão simples e nem bonito como aparentava ser. Havia um preço a ser pago por aquilo tudo, uma falsidade generalizada da qual facilmente se poderia acreditar e que poderia ser o primeiro passo para um beco sem saída. A banda começou a tocar novamente e os garotos e garotas recomeçaram a dançar, e as luzes sobre as suas cabeças giravam, lançando sobre os casais reflexos dourados, depois vermelhos, azuis, verdes e então novamente dourados. Enquanto eu os observava, dizia a mim mesmo que um dia minha dança iria começar. Quando esse dia chegasse teria uma coisa que eles não têm.
De repente, contudo, aquilo se tornou demais para mim. Eu os odiei. Odiei sua beleza, sua juventude sem problemas e, enquanto os via dançarem por entre o mar de luzes mágicas e coloridas, abraçados uns aos outros, sentindo-se tão bem, pequenas crianças ilesas, desfrutando de sua sorte temporária, odiei-os por terem algo que ainda não tinha, e disse para mim mesmo, repeti para mim mesmo, algum dia serei tão feliz quanto vocês, esperem para ver
10:13 AM
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Sábado, Abril 22, 2006
E saia todas as noites. A gente ia de bar em bar, vestidas como piranhas, cobertas de bijuterias, para encher a cara de uísque on the rocks espreitando a trama de uma noite. A gente encontrava os amigos de Nina, velhos amigos, que ela só encontrava durante a noite, um bando de frustrados rancorosos que, dizia ela, iam me entender, compreender a minha história. Eles não entendiam nada, mas pagavam à conta. Era a única coisa que esperava deles. Às vezes um deles tinha uma queda por mim, sentava do meu lado e passava a noite inteira me entupindo de tequila, cocaína fajuta e cumprimentos surrados. E ela dava nos banheiros, onde tinha a qualidade de ser rápido, ou nos carros estacionados. Ou nos quartos de empregada. Passava assim a madrugada, aquela hora bastarda na qual já não se espera mais nada da noite, na qual o próprio leito se torna assustador. Eles estavam normalmente meio brochas e mal conseguiam colocar a camisinha, a gente trepava mal, apenas pelo o hábito, escutando o barulho das latas de lixo sendo esvaziadas. O ego é o maior inimigo da foda.
E, no dia seguinte, a gente se via de novo, se sentava na mesma mesa. Eles resvalavam nos meus lábios me dando um beijo, soltando risadinhas, os maxilares crispados, um pouco constrangidos. Eu, nada.
9:40 AM
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Quinta-feira, Abril 20, 2006
Pela calçada da Bulhões de Carvalho - Copacabana, Rio, que fique bem claro - vem a menina pequena. Ela é altiva, apesar de miúda. Anda com passos mais ou menos rápidos. Quer atravessar a rua em direção à Francisco Sá mas, o pai pede para aguardar o sinal. A loja de discos do fundo da galeria é o destino. Ela entra afobada, olha firme para a pequena entrada de mármore barato e para a última loja. Satisfação em forma de discos. E lá ela dança mentalmente, antevendo um futuro do pretérito musical, de sempre ser sonora, vermelha, nobre, intensa e adorável. Todos sabem disso. Os discos, as pessoas e os presentes. Som. Mila é som. Não existiria no vácuo, apenas, se arrumasse um jeito de torná-lo vermelho. Transformaria a Terra num globo luminoso e faria as estrelas dançarem em órbitas de rachar o assoalho da galáxia. Talvez ela seja mais digna dos céus. Mas eu, que sou cor também, me intrometo no acerto da palavra e a cortejo azulmente, como qualquer cor faria com alguém tão vermelho.
Feliz aniversário querida.
9:46 AM
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Sábado, Abril 15, 2006
Saída.
Ambigüidade em sua forma mais absoluta tomava conta de mim quando o tema era ele. Ao mesmo tempo em que dividíamos uma afinidade invejada por meus irmãos, via nele o motivo de tristeza e rebeldia. Sua presença, de vezes tão raras, causava em mim um sentimento múltiplo de segurança e efemeridade. Como só uma mulher é capaz, tratei de transformar tais sentimentos em uma magoa das mais profundas, dessas que vão se acumulando em nossa alma ao longo da vida. Nossos momentos ficavam desde então marcados por uma nevoa que tirava deles um pouco de sua magia.
Anos mais tardes, sob circunstancias extremas de tristeza e vergonha, vi o fim de uma duvida que, há muito tempo habitava a mim. Se a vida me fez duvidar da existência de tal emoção, ali tive certeza de seu amor, que se apresenta da forma mais uterina que um homem é capaz.
Ao lado da cama, vendo o primeiro homem da minha vida chorar, selei as pazes com o destino. Se a chegada tinha o feito mais feliz certamente a saída deixara meu pai mais triste. Naquele momento abandonei todas as minhas certezas, tão comuns os nossos resquícios de infância, e aceitei um homem muito distante do super-homem. Talvez o responsável por não acreditar em conto de fadas ou heróis por muito tempo, mas, com certeza, o homem que fez sentir o amor mais profundo, demonstrado ali sob o teor mais humano, o amor incondicional.
4:10 PM
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Quinta-feira, Abril 13, 2006
Medo
Segundo Alfa e Beta o crime compensa, porém quando constantes deixa-nos incrédulos. A violência não é apenas intrínseca à condição humana como se faz recurso imprescindível para superar fases obsoletas. Análogo a dor, a fome ou a culpa esta nos é indispensável. A total não violência é equivalente a morte, contudo esta em demasia faz do fim alivio. Temor e pusilanimidade funcionam quase como propaganda de um preceito opressor e maniqueísta, onde medo ou cobardia é tomado como mal maior que a bestialidade absoluta. Lúgubre e agressivos andamos em caminho fadado ao infortúnio. A problemática da guerra carrega em si o valor de seu próprio fado. A mesma violência que se faz parteira da história ganha renome em um comportamento anti-social reincidente da mídia sensacionalista. Se não há fatos apenas interpretação dos fatos, que episódios são esses que recebem a mesma extraordinária apresentação. Vivemos em um duelo televisionado que ataca não só as ruas como o intelecto e os ideais de um povo em descrédito. Reticências em uma noticia que anuncia a pior dos saldos, a vulgarização do espanto.
9:01 PM
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Quarta-feira, Abril 12, 2006
Sensatez
Homens da moral, essas pessoas sensatas que se conservam tão calmos, tão apáticas vocês! "Paixão, embriaguez, loucura!" Exclamei sorrindo. Afugentam o bêbado, esmurram o louco, e passam a diante, como um mestre, o clérigo grato a Deus por tê-lo feito igual aos outros. Fiz-me bêbado mais de uma vez e as minhas idolatrias sempre rememoraram à loucura, todavia não mora em mim um pingo de arrependimento. Intui com o tempo as razões pelas quais todos os formidáveis homens de grandes proezas foram tratados como dementes e alcoólatras. Mas, no infausto cotidiano, nada mais intolerável que ouvir gritarem sempre que qualquer pratica uma ação intrépida, nobre e grandiosa "este é um louco". Que desdouro vocês que vivem sóbrios! Tolos homens sensatos.
8:55 AM
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Segunda-feira, Abril 10, 2006
"O que você amar você é" (Rûmi)
A primeira vez que eu sofri por amor foi com 11 anos. Completamente apaixonada pelo o meu melhor amigo, sofri uma dor que não sabia que existia. Primeiro, porque amar dói e eu descobri isso aos 11anos. Depois, porque amor proibido e não correspondido dói ainda mais.
A segunda vez que sofri por amor foi ainda mais dolorida. Eu tinha 15 anos e me apaixonei por um oposto do certo. Uma versão minha acentuada que nada lembrava o socialmente aceito. Só que dessa vez, para a minha completa estupefação, ele também se apaixonou. E, quebrando todos os códigos morais e éticos sob os quais vivíamos na época, acabamos cedendo aos apelos físicos. O amei da forma mais uterina que uma mulher é capaz me perdendo em um eufemismo de dois. Começava o grande drama da minha vida. Estava entrando em campo religiosamente bambo que você só descobre quando cede. Foi sem dúvida o período mais sofrido da minha existência. Foi sem dúvida também, o período mais feliz da minha vida. Eu amava, eu era amada, e não sabia como deixar esse amor se mostrar para o mundo. Foi ai que descobri que pior que amar sem ser correspondida é amar em silencio. E, mais triste ainda é descobrir que esse amor não tem futuro. Que existe amor que não estão em catálogos e que, por isso, não são entendidos pela mediocridade humana. Nem toda forma de amar é justa, mas em todas as suas formas deveriam ser celebradas e amplamente manifestadas. Vergonhoso deveria ser exatamente a falta de capacidade demonstrar - essa epidemia moderna que tende a nos fazer acreditar que se mostrar vulnerável é fraqueza. Hoje, sentir e falar são manifestações quase sempre movidas pelo o ódio.
.........
Henrique sabia falar inglês. Isso, em uma época em que somar já era motivo de horas de reflexão dentro das nossas cabecinhas. Não era difícil entender porque isso nos irritava. Como se não fosse suficiente tamanha petulância, Henrique ainda era bonito e mal trocava idéias com a gente. Com o tempo, o pequeno gênio virou motivo de chacota. Era uma forma absolutamente humana de nos igualarmos a ele: se por um lado ele era mais inteligente por outro nos éramos mais espertas. Por algum motivo medíocre e banal é mais fácil falar mal do que bem, criticar do que elogiar.
Até que um dia, anos depois, motivos sociais me fizeram me juntar a ele. Sentava no fundo da sala, admirei pela a primeira vez a sua habilidade com as palavras. Conversávamos sobre os mais diversos assuntos com a petulância que só uma criança tem. Assim, aos poucos, a raiva se transformou em admiração.
Henrique Lins me ensinou a falar inglês, a ver filmes de adulto e que nem sempre ser igual é melhor. Mas, mais do que isso, ao me aceitar em seu grupo de um aquele menino me ensinou a perdoar. E perdoar é o gesto humano que mais parece divino. E também, como já dizem, o único lugar onde o amor e a justiça andam juntos. E claro muito mais difícil do que falar inglês.
E foi ai, na infância, que sonhei primeiro com um mundo mais colorido. Onde diferenças seriam celebradas e sentimentos incentivados. E que, entre trancos e barrancos, tento ainda acreditar mesmo em um mundo que mata a esperança e te responde com respostas frias.
9:13 AM
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Quarta-feira, Março 29, 2006
Havia um cara na sala dos fundos que apareceu nessa hora. O novo gerente, talvez, ou o novo proprietário. Os dois trocaram rugidos em uma língua bem humorada que parecia constituída só de vogais. Olharam para ela e riram só uma risadinha. Voltaram, então, para a limpeza regimental. Primeiro a maquina depois as banquetas. O homem que parecia o gerente começou a empilhar algumas das cadeiras da divisória. Esse era realmente um bar peculiar.
Foi só uma risadinha, mas ela não gostou. De repente, Alice se sentiu mal, irremediavelmente mal, pior do que se senta há semanas. Tinha afundado tanto que virara uma daquelas pessoas que só encontravam companhia depois da meia-noite, conversando com garçons que mal sabia quem era. Já não conseguia colocar um pouco da sua natural melancolia nisso.
Os laços humanos todos se quebram, se fragmentam, explodem, pensou ela naquele momento, e era isso que na verdade queria dizer a Mario, mas não achava que isso tinha muito a ver com ele. Afinal, ela era Alice, uma rompedora de laços, uma destruidora de famílias, uma alma morta em uma cidade fadada ao fim. E, por mais que tentasse não pensar muito nisso, sabia que ele não a havia perdoado. Não depois de tudo aquilo. Não por telo feito perder o emprego, a sua arte e parte do que o fazia sentir como homem. Suas promessas de vida, sexo e aventura a muito não se realizavam e por isso, ele sabia que não deveria ter largado tudo. Um fato porem, é que Mario não se sentia repleto antes de dela. Sabia que não. Lembrava de quando a conheceu e de sua primeira noite junto. De suas teorias de felicidade e de como tudo deveria ser. Alice falava com certeza sobre assuntos sobre o qual mal conhecia e sua dedicação ao partido o fazia querer ser melhor. Ela não tinha a cultura de Mario ou sua educação, mas tinha a inteligência da prática, como ela mesma falava. "Eu nunca vou te esquecer" gritava Mario. "Ninguém esquece seu primeiro amor, ate porque essa é sempre sua primeira boa foda." Resmungava Alice.
9:12 AM
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Quarta-feira, Setembro 07, 2005
Pulei no banco de trás de um Opala 69 e fugi. Fugi de comentários, opiniões e julgamentos. E gora só escrevo pra mim e pra quem vier comigo. Quer vir?
www.orkut.com/Profile.aspx?uid=18025140638008390326
msn: julianiquet@hotmail.com
6:14 PM
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Terça-feira, Agosto 23, 2005
- Pensando no quê?
- Nada.
- Mentira. Diz.
- Nada.
- Como vou saber que não é mentira?
- Tem que acreditar.
- Então por que essa cara?
- Que cara?
- De quem comeu e não gostou.
- Assim você ofende. Qual o problema com a minha cara?
- Nenhum. Você é linda.
- Tá. Tá bom.
- Por quê? Não acredita?
- Não. Como vou saber que não é mentira?
- O que faço pra você acreditar?
- Pára de querer agradar. Dizer que estou linda com cara de quem comeu e não gostou quando estou pensando.
- Ah! Então pensa alguma coisa!
- Todo mundo pensa alguma coisa. O tempo todo. Impossível parar de pensar.
- Então conta. Vai.
- Não tem uma só.
- Conta todas. Tenho a vida inteira pra ouvir.
- Não quero.
- Por quê?
- Vergonha.
- De mim?
- Não. De mim mesma.
- Assim morro de curiosidade.
- Não é bom motivo pra te contar.
- Mas não é só. Fico com o coração na mão.
- tô vendo a cara de coração na mão! Está nem aí, é só curioso.
- Fico achando que não gosta mais. Não agüento cara de silêncio.
- Sem motivo.
- Por que não conta logo?
- Direito a ter meus segredos. É até bom pra gente. Você me achar mulher misteriosa, querer me desvendar.
- Não quero mulher misteriosa.
- Quer sim.
- Não quero.
- Quando souber todos os meus pensamentos, não vai mais me querer.
- Mentira. Diz.
- Silêncio não é ruim. Só quem tem intimidade fica em silêncio sem coceira.
- Se tem intimidade, deve falar. Vai.
- Ficaria decepcionado. Deve achar que eu penso coisas importantes. Nada disso.
- Dá um exemplo.
- Agora há pouco pensava no meu peito.
- Estão bonitos.
- Não são sempre bonitos?
- Claro que sim.
- Os mais bonitos que já viu?
- Mais bonitos.
- Tem certeza?
- Tenho.
- Como vou saber que não é mentira?
- Tem que acreditar.
- Então por que essa cara?
- Que cara?
7:59 PM
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Sexta-feira, Agosto 19, 2005
Odeio homem que arrota aquele assoprinho que precede a explosão do chopp. Odeio quem casa virgem, odeio quem chega em casa depois de uns malhos no carro e enfia o dedo no meio das pernas porque tava louca para dar mas "ele ia me achar muito fácil". Mas eu também odeio mulher que sai dando pra meio mundo e perde o mistério. Sei lá, essa coisa toda de dar vai ser sempre uma dúvida. Odeio dúvidas.
Odeio meninas caçadoras de homens ricos mas odeio sair com um cara que está tentando começar um relacionamento e ter que rachar a conta, seria mais simpático me deixar pagar a conta toda. Rachar é péssimo. Odeio aquele filme da loira e da morena do David Lynch, odeio as pessoas que não entendem que Felicidade veio antes de Beleza Americana e odeio quem odeia o Woody Allen.
Dividir banheiro, pêlo alheio em sabonete, acordar cedo e meninas adolescentes peruas com voz de pato. Odeio aquele velho filho da puta me olhando na mesa ao lado, com três crianças penduradas no pescoço e uma mulher com culote comendo abacaxi para ajudar na digestão do javali. Odeio a típica família e suas árvores de Natal cheias de rancor, e os doces das tias cheias de rancor, e as crianças lindas correndo querendo que o priminho morra porque ganhou mais brinquedos. Odeio a mim mesma por ter deixado o nada ter tomado proporções gigantescas. Eu te odeio tanto. Odeio o quanto eu estou sofrendo. Eu odeio a vergonha que eu sinto e que me impede de dividir isso com alguem. Eu te odeio tanto. Eu odeio que voce tenha razão. Odeio o tapinha dos homens e o beijinho em falso das mulheres. Prefiro virar a cara, prefiro cuspir, prefiro odiar, quando eu era criança sonhava todas as noites que arrancava os olhos de todo mundo e só eu podia enxergar o quanto era feio eu ser como sou.
2:57 PM
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